Eu não sirvo de exemplo para nada, mas, se você quer saber se isso é possível, me ofereço como piloto de testes.
Sou a Miss Imperfeita, muito prazer.
Uma imperfeita que faz tudo o que precisa fazer, como boa profissional, amiga, filha, irmã e mulher que também sou: trabalho todos os dias, ganho minha grana, vou ao supermercado duas vezes por semana, decido o cardápio das refeições, faço pilates três vezes por semana, telefono para minha mãe todas as noites (ou quase todas!), semanalmente tomo café (às vezes um bolo de nozes) com minhas amigas, mimo meu marido todas as noites, vou a igreja todos os domingos, faço (ainda que tímido) trabalho social para crianças carentes (sou feliz por isso!), pago minhas contas em dia, respondo a toneladas de e-mails, sonho em conhecer a neve (para fazer bonecos... rsrsrs), faço revisões no dentista, sigo rigorosamente meu tratamento ortomolecular, passo todos os cremes antes de dormir, nunca esqueço do protetor solar, caminho duas ou três vezes por semana com a minha amiga Susi (a caminhada serve para deixar o corpinho em forma e a língua tbém!), sou cozinheira aos domingos, cuido do meu jardim lindo, providencio os consertos domésticos, duas vezes por semana encontro uma a.m.i.ga. (estou tentando mudar para somente uma vez), ligo todos os dias (todos mesmo!!!) para a princesa Sophia, levo o carro para a oficina e finjo não perceber as risadas dos mecânicos qdo eu explico o problema, assisto futebol com meu marido (exceto qdo é o São Paulo que joga pq ele diz que dou azar...), pinto o meu cabelo todos os meses, faço escova toda semana - e as unhas!
E, entre uma coisa e outra, leio livros e surfo pela net.
Portanto, sou ocupada, mas não uma workaholic.
Por mais disciplinada e responsável que eu seja, aprendi duas coisinhas que operam milagres.
Primeiro: a dizer NÃO.
Segundo: a não sentir um pingo de culpa por dizer NÃO.
Culpa por nada, aliás. Existe a Coca Zero, o Fome Zero, o Recruta Zero. Pois incluí na minha lista a Culpa Zero.
Quando nascí, nenhum profeta adentrou a sala da maternidade e me apontou o dedo dizendo que a partir daquele momento eu seria modelo para os outros.
Meu pai e minha mãe, acredite, não tiveram essa expectativa: tudo o que desejaram é que eu não chorasse muito durante as madrugadas e mamasse direitinho.
Eu não sou Nossa Senhora (posso parecer mas não sou... rsrsrsrs).
Sou, humildemente, uma mulher. E, se eu não aprender a delegar, a priorizar e a me divertir, bye-bye vida interessante. Porque vida interessante não é ter a agenda lotada, não é ser sempre politicamente correta, não é topar qualquer projeto por dinheiro, não é atender a todos e criar para si a falsa impressão de ser indispensável. É ter tempo. Tempo para fazer nada. Tempo para fazer tudo. Tempo para dançar sozinha na sala. Tempo para bisbilhotar uma loja de roupas. Tempo para sumir dois dias com meu amor. Três dias. Cinco dias! (pescando?)
Tempo para uma massagem. Tempo para ver o seriado friends junto com o marido. Tempo para receber aquela amiga que é consultora de produtos de beleza (que vc compra mas nunca usa!). Tempo para fazer um trabalho voluntário. Tempo para procurar um vaso novo (pq sua empregada quebrou o antigo...). Tempo para conhecer outras pessoas. Voltar a estudar. Para engravidar (...). Tempo para escrever um livro que você nem sabe se um dia será editado.
Tempo, principalmente, para descobrir que posso ser perfeitamente organizada e profissional sem deixar de existir. Porque aprendí que nossa existência não é contabilizada por um relógio de ponto ou pela quantidade de memorandos virtuais que atolam nossa caixa postal.
Existir, a que será que se destina?
Destina-se a ter o tempo a favor, e não contra.
A mulher moderna anda muito antiga. Acredita que, se não for super, se não for mega, se não for uma executiva ISO 9000, não será bem avaliada. Está tentando provar não-sei-o-quê para não-sei-quem. Precisa respeitar o mosaico de si mesma, privilegiar cada pedacinho de si. Se o trabalho é um pedação de sua vida, ótimo! Nada é mais elegante, charmoso e inteligente do que ser independente. Mulher que se sustenta fica muito mais sexy e muito mais livre para ir e vir. Desde que lembre de separar alguns bons momentos da semana para usufruir essa independência, senão é escravidão, a mesma que nos mantinha trancafiadas em casa, espiando a vida pela janela.
Desacelerar tem um custo.
Talvez seja preciso esquecer a bolsa Prada (sim!!!), a tão sonhada viagem pela Europa e o batom da M.A.C.(Dior tbém!).
Mas, se precisamos vender a alma ao diabo para ter tudo isso, francamente, precisamos rever nossos valores. E descobrir que uma bolsa de palha, uma pousadinha rústica à beira-mar e o rosto lavado (ok, esqueça o rosto lavado) podem ser prazeres cinco estrelas e nos dar uma nova perspectiva sobre o que é, afinal, uma vida interessante.
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